sábado, 28 de fevereiro de 2009

Os Uros e suas ilhas flutuantes

Como pode uma tribo pequena, literalmente morando sobre a superfície de um lago de águas gélidas a 3800m de altitude, sobreviver a invasões de incas e espanhóis e ainda manter até hoje tradições culturais seculares? Esses são os Uros, um povo do Lago Titicaca, entre Bolívia e Peru. O chão de suas casas é feito de um junco chamado totora, trançado em várias camadas de forma a suportar cargas bem pesadas. Os Uros escolhem pequenas ilhas naturais para desenvolver as bases das suas moradias, que devem ser renovadas regularmente para não irem literalmente por água abaixo. Não só o piso, paredes e telhados das casas são feitas com totora; essa generosa planta provê também alimento e remédio para seu povo, aproveitando-se tudo, da raíz às flores. As ilhas maiores chegam a abrigar 10 famílias com todo o conforto. Em tempo: conforto aqui significa não só espaço para lazer e criações de animais, mas também itens nada rudimentares como televisões e até uma estação de rádio, com uso de geradores. Antiquado demais? Painéis solares também são utilizados sem cerimônia. A organização social permite ainda a escolarização das crianças Uros. É claro, em escolinhas feita também de totoras sobre o Titicaca.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Os Xhosa e seus 'clicky sounds'

Na época da colonização branca na África do Sul, grupos Xhosa viviam no interior da região do Cabo. Desde os anos 1770, vários confrontos foram travados por disputas de terras com os Trekboer, colonizadores holandeses fazendeiros, assim como os Xhosa. As constantes disputas e guerras terminaram por enfraquecer a presença holandesa no Cabo, culminando com a chegada dos ingleses à região logo depois. Um século mais tarde, com a fundação de um estado unindo repúblicas independentes Boer e colônias britânicas, as nações negras como os Xhosa passaram a viver confinadas em 13% do território sul-africano, reservando-se os outros 87% para os brancos, situação que perdurou até 1994. O regime de confinamento conhecido como Apartheid criou autênticas cidades negras, onde imperou a miséria e a exclusão social, mas também onde as tradições orais puderam ser preservadas com raro sucesso. No caso dos Xhosa, sua língua é um exemplo fantástico dos limites da fonética humana. Imortalizados na música em vozes como de Miriam Makeba, os celebrados clicky sounds da língua Xhosa são estalos (a começar pelo próprio nome!) gerados no céu da boca, que soam com diferentes nuances a depender da letra pronunciada. Como uma das mais populares das nove línguas negras oficiais da África do Sul, o Xhosa tem hoje veiculação muito comum nos meios de comunicação, e dá gosto ouvir (mesmo sem entender nada) um apresentador de telejornal ou uma propaganda nesse idioma. Tem-se a impressão de haver alguém escondido martelando um taco de madeira! Ouça uma demonstração aqui.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Os aborígenes e seus didjeridoos

A cultura aborígene tradicional, com caçadores usando bumerangues, danças rituais, grandes fogueiras em noites repletas de estrelas – isso é que muitos turistas esperam encontrar na Austrália. A realidade, porém, é bem diferente. A população indígena urbana é muito pequena, é difícil deparar-se com um nativo australiano nas ruas de Melbourne, Sydney ou Adelaide. O único toque de cultura aborígene que se observa atualmente são artefatos como bumerangues, pinturas e instrumentos musicais como o didjeridoo em lojas de souvenir. A razão é simples: conflitos pela posse do território e disseminação de doenças desconhecidas como a gripe comum.
O didjeridoo é um instrumento de sopro com mais de 1500 anos e consiste de um tubo com 1 a 3m de comprimento, feito em geral com tronco de eucalipto naturalmente oco por cupins. Seu timbre é bem grave, e confere um som de fundo bem exótico (aquele 'boing-boing', um verdadeiro mantra instrumental) para danças, rituais e cerimônias religiosas.
As pinturas aborígenes refletem suas tradições e crenças a respeito da criação, do amor, caça, casamento, vida e morte; enfim, fatos cotidianos contados oralmente e acompanhados - é claro - por um didjeridoo bem tocado. São típicas as cores fortes sobre bases ocres, usando uma infinidade de pontinhos que recriam formas oníricas envolvendo objetos, pessoas ou animais. Tudo feito com material muito comum por lá: terra, sementes e pedras.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Os Inuit e seus inukshuks

Os inuit são os membros da nação indígena esquimó que habitam as regiões árticas do Canadá, do Alasca e da Groenlândia. No século XV, os inuit estabeleceram os primeiros contatos com os baleeiros franceses e pescadores de bacalhau. Eles rapidamente desenvolveram relações com os europeus baseado no comércio de peles. Isto os levou a abandonar inúmeras práticas tradicionais para se devotarem inteiramente caça de peles de animais.
Uma tradição mantida até os dias atuais é a construção de pequenas pilhas de pedras antropomórficas chamadas conhecidas como inukshuk. Podem ser encontradas por todo o mundo circumpolar, significando "semelhante a um humano" no idioma inuit. São monumentos feitos de pedras brutas, usados pelos inuits para comunicação e sobrevivência, transmitindo uma mensagem do tipo "alguém esteve por aqui" ou "você está no caminho certo".
Um inukshuk pode ser pequeno ou grande, de uma única rocha ou várias pedras apoiadas umas nas outras, de seixos arredondados ou lajes retas. Feitos com todo tipo de material disponível, cada escultura é única. O arranjo das pedras indica o propósito do monumento. As direções dos braços ou pernas pode indicar a direção de um canal para navegação, ou uma passagem num vale através das montanhas. Um inukshuk sem braços ou com chifres afixados, pode atuar como um marcador para um esconderijo para comida.
Esses pequenos monumentos são visíveis nos acostamentos e no alto de barrancos de estradas por todo o Canadá, e seus anônimos construtores quase nunca são vistos em ação, o que confere a essa tradição um merecido status de lenda urbana.

Os judeus africanos

Um dos conceitos que melhor descrevem o povo judeu é a sua unidade, dos pontos de vista racial, cultural, religioso e social, implicando às vezes em um forte sectarismo. É possível que nesse contexto existam judeus negros? A resposta é sim, e de origem tão antiga quanto a dos que povoam os relatos bíblicos.
Na África há dois povos muito antigos que se encaixam nessa descrição e atualmente são reconhecidos como judeus: os Falashas e os Lembas. Um teste de DNA feito em 1999 pelo geneticista inglês David Goldstein, da Universidade de Oxford, descobriu que uma tribo de negros do norte da África do Sul tem ascendência judaica. Estamos falando dos Lembas que fazem circuncisão, casam-se apenas entre si, guardam um dia por semana para orações (o shabat) e não comem carne de porco nem carne de hipopótamo, considerado parente do porco. Geneticamente, os Lembas são parentes dos Cohanim, que junto com os Levi e os Israel formam um dos grupos em que se divide o povo judeu. Os cientistas afirmaram que o ancestral comum dos Lemba e dos Cohanim viveu entre 2.600 e 3,100 anos atrás. O período coincide com a existência de Aarão, irmão de Moisés, de quem os Cohanim descendem. Provavelmente, seria o pai também dos negros lemba. Os falashas são assim chamados pejorativamente, cujo significado é estrangeiro. Mas, também são chamados Beta-Israel (casa de Israel). Na Etiópia formavam uma comunidade atrasada e fechada, que preservava usos e costumes milenares, dizendo-se descendentes da tribo perdida de Dan, fundada por Menelik, filho do rei Salomão com a rainha de Sabá. Em 1947, eles foram reconhecidos pelos rabinos de Israel. Eles mantinham as rígidas leis da Torah (Pentateuco). Viam na Etiópia até a grande seca de 1985 quando, para salvar-lhes a vida, Israel montou a "Operação Moisés" para tirá-los, secretamente, via aérea, da África e levá-los até o Estado de Israel. No dia 21 de novembro de 1984 começou esta operação. A comunidade de judeus negros da Etiópia já chegou a 80.000 pessoas, mas o governo africano ainda retém 26.000 judeus em seu território. Ao chegarem em Israel estavam desnutridos e famintos. Israel é o único país no mundo que retirou negros da África para lhes dar qualidade de vida, estudo, trabalho.
(Sobre texto de Jane Glasman)